sexta-feira, 25 de abril de 2008

Perdoa-nos, Isabella!


Por Evandro Pelarin – Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal e da Infância e Juventude da Comarca de FernandóplisSP.

Gente adulta pode ser má, muito má. Você, Isabella, soube disso de uma forma muito dura.
Esganaram seu pescocinho. Arremessaram seu corpo frágil do sexto andar do seu apartamento.
Você deve ter sentido dores terríveis. Sofrido os piores minutos de pavor e agonia.
Até que seus olhinhos,mesmo estatelados,deixaram de ver este mundo.
Isabella, pedimos o seu perdão porque nós, adultos, criamos leis que beneficiam criminosos.
A lei brasileira presume a inocência de um assassino, mesmo diante de evidencias razoáveis de culpa.
Porém, essa mesma lei não vê a inocência de uma criança.
Adultos brasileiros, Isabelinha, têm o costume de ficar parados, assistindo às crianças morrerem.
Com isso, no Brasil,dezesseis vítimas infantis são assassinadas todos os dias. Criancinhas da sua idade, são torturadas, como o menininho João Hélio lá do Rio de Janeiro e os corpinhos são trucidados sem piedade.
E o povo brasileiro não faz nada. Os assassinatos de crianças e adolescentes aumentaram 306%, no Brasil, entre 1980 e 2002.
Eu sei que você não vai entender esses números.
Você – como toda criança – queria viver, brincar, sorrir, ser feliz.
Esse seu direito, o assassino tirou. E agora esse mesmo assassino pode se beneficiar da lei molenga e da preguiça dos brasileiros.
Perdoe, Isabella, este país,que ainda é uma criança, no sentido irresponsável da palavra. Ele também não cresceu.
Em assuntos sérios, como os homicídios de crianças, o Brasil parece brincar com a justiça necessária ao caso, diante de leis que soam como brincadeira; infelizmente, de péssimo gosto. Este país, Isabella,não gosta de punir criminosos.
Se você perdoar a complacência da lei dos adultos com os criminosos, não pense, ainda, que todo adulto é malvado ou dá de costas para indefesas crianças.
Quando o João Hélio morreu, nós – aqui desta cidade que você nunca ouviu falar – sentimos muito.
Escrevemos para ele também.
Nós não tivemos como enviar uma coroa de flores para o seu túmulo, Isabelinha.
Mas não vamos ficar aqui lamentando, como muitos fazem. Nossa homenagem a você, querida criança, é dizer-lhe que os pequeninos, nesta cidade, não estão abandonados à própria sorte.
Nem padecerão, pela fraqueza da lei diante de atrocidades como a sua.
Estamos em meio a uma grande batalha, Isabella, entre adultos.
Para alterar a visão que o pessoal tem da lei. Responsabilizar criminosos.
Cobrar respeito com os mortos, com as vítimas.
Isso tem custado um bocado, tem sido muito difícil.
E quando morre uma criança brutalmente, nós ficamos meio sem rumo, porque percebemos que o criminoso sente o cheiro da impunidade se aproximar.

Créditos:
Texto: Perdoa-nos, Isabella!
Autor: Evandro Pelarin – Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal e da Infância e Juventude da Comarca
de FernandópolisSP.

Nenhum comentário:

Postar um comentário