terça-feira, 2 de setembro de 2008

Ainda sinto arrepios.


Uma vez ouvi uma estória que me arrepiou.
Quando pequeno vivia enfiado na casa da minha madrinha, pessoa ilustre na Vila Mariana e muito conhecida no meio Kardecista.
Há um Centro Espírita muito estruturado, lá na Vila Clementino, cujo projeto e criação tiveram as mãos da minha madrinha.
Tenho 51 anos e parece que consegui viver em uma época, quando criança, que hoje analisando parecia ser no outro século.
A Avenida Domingos de Moraes tinha bonde.
As pessoas ainda se vestiam quase todas como se fossem em alguma festa, de ternos e vestidos clássicos.
Era realmente diferente.
Nas noites de final de semana, na casa da minha madrinha, reuniam-se os familiares. Havia canto lírico, prosa e para não perder o costume, muito assunto ligado ao espiritismo.
Foi lá que ouvi uma estória que até hoje me arrepia os cabelos.
Num desses finais de semana, um amigo da família, contou um caso de um casal jovem que morava de favor em um bilhar, que ficava na Avenida Jabaquara, sobre um velho prédio, para dizer a verdade, na época, já era um sobrado centenário, pois me lembro perfeitamente dele.
Não havia prédios altos e a predominância das construções eram as do final do século passado, construídas pelos Italianos que faziam fortuna colonizando a Vila Mariana e adjacências.
Voltando à estória, realmente quando me lembro ainda respiro fundo.
Foi assim:
O jovem casal necessitava morar pagando a menor quantia possível de aluguel, pois o marido estudava direito à noite no largo de São Francisco e a duras penas amealhava alguns trocados como balconista de uma loja no centro.
Sua jovem esposa, grávida, nada podia fazer para auxiliá-lo na labuta que gerava o dinheiro da casa, mas voltava-se ao trato do pequeno quarto contíguo a um famoso salão de bilhar na Avenida Jabaquara.
O quarto foi oferecido graciosamente por um amigo de um professor, que era proprietário do comércio.
Lá, nas décadas de 20 e 30, reuniam-se famílias no passatempo do bilhar, onde mais valia as reuniões familiares que o próprio jogo.
O casal, como forma de um objetivo, aceitou de pronto morar e zelar pelo local após o fechamento da casa.
Logo que para lá mudaram, em uma das noites, após terem fechado a casa, o rapaz, do seu quarto, começou a escutar vozes, risadas e o barulho de bolas batendo uma contra as outras.
Com certeza haviam invadido o local e estavam na esbórnia.
Temeu em sair para verificar, pois o alarido era grande. Com certeza havia muitas pessoas no salão de jogos.
O que fazer?
Conversou com a sua mulher e sentiu toda a responsabilidade de estar morando lá justamente para que eventualidades como aquela não viesse ocorrer.
Encorajou-se e saiu para o salão.
Não havia nada!
As luzes apagadas e tudo no seu lugar.
Achou de momento que o barulho estivesse vindo talvez da rua.
Aproximou-se da janela e olhando para a Avenida Jabaquara apenas viu um bonde que passava; um carro de coleta de lixo movido a burros e mais nada.
Apenas as luzes da rua acesas, mais nada.
Voltou ao quarto e olhando para a sua jovem mulher disse:
- Não havia ninguém lá!
Ela inquieta perguntou:
-Impossível, havia gente, muita gente lá.
Trancando a porta do quarto, retornou à cama.
Tão logo deitou, novamente a zuada começou.
Gargalhadas, batidas de copos como se estivessem brindando, barulho de jogo de bilhar. Bolas batendo uma nas outras.
Arrepiou-se todo e saiu novamente para o salão.
Nada!
Não havia ninguém, não havia nada em desordem.
Um arrepio da morte tomou conta do jovem. Virou-se e retornou ao quarto.
Em pensamento pedia o auxilio de Deus para que não desmaiasse.
Era algo inexplicável o que estava acontecendo.
Pedia em pensamento que o seu anjo da guarda defendesse a ele e esposa. Ambos estavam desesperadamente apavorados.
Não tardou em começar tudo novamente.
O jovem foi buscar coragem dentro da alma.
Dirigiu-se até a porta e do quarto gritou:
-Vão embora, estamos com medo.
-Deixem-nos em paz.
Tudo ficou em silêncio novamente.
O casal voltou à cama e iniciaram uma oração quase que sem fim.
Foi quando bateram à porta, quase matando de susto o casal.
E bem próximo à porta, do outro lado, ouviram uma voz forte, mas muito calma:
-Deixem-nos jogar só esta noite.
O casal se abraçou e ficaram lá imóveis, enquanto toda a farra invisível recomeçava lá fora.
Isto foi até o amanhecer.
Relutaram em sair da cama.
Quando escutaram os proprietários abrindo a casa, destrancaram a porta e correram em direção deles.
Contaram o ocorrido e pediram para abandonarem o quarto.
Convencidos pelos bons proprietários, acabaram aceitando ficar por mais uma noite.
Nenhum barulho ou fenômeno como ocorrido voltou a acontecer a partir daquele dia.
Esta estória foi contada por uma pessoa de muita credibilidade e o rapaz que foi personagem da estória, após alguns anos, tornou-se professor de Direito da USP e deputado federal do MDB.
Tornou-se espírita e foi um dos maiores divulgadores da doutrina.
Toda a vez que me lembro da estória ainda me arrepio.


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