sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Nhá Bába

Não a conheci jovem, mas com certeza esta ai em cima era ela com vinte e poucos anos.

A querida Nhá Bába, era uma senhora magra e alta, negra e beirando uns 100 anos.

Era minha vizinha no Parque Edu Chaves, uma das vilas do folclórico bairro do Jaçanã, bem na divisa de Guarulhos, aqui em São Paulo.

Quando criança, o bairro era uma fazenda que vinha se apovoando. Tinha gado, mato, riachos, muitas árvores e um crescente número de pessoas novas que vinham na oportunidade de adquirir seus terrenos e construir suas casas.

Era o início dos anos 60, pois o Presidente Kennedy ainda não havia sido assassinado.

A Avenida principal, onde eu nasci, era a única que recebera por aqueles dias um calçamento de paralelepípedos.

Eu morava em uma casa em uma das esquinas da Avenida principal, a qual ainda é nossa, da família.

Nhá Bába.

Vejam bem: em 62 eu tinha 6 anos e a Nhá Bába quase 100.

Voltando a ela, era muito bonita considerando a idade que tinha.

Magra e alta, perto de 1,80m, vestia-se sempre com vestidos longos, alvos e soltos.

Jamais a ví sem um turbante.

No bairro, os terrenos eram todos grandes, quase todos com no mínimo 50 mts de fundo e com a testada não inferior a 10 mts.

A casa da Nhá Bába era de madeira, como aquelas que vemos ainda em Curitiba ou nas cidades do Mato Grosso do Sul; bonitas e bucólicas.

Nhá Bába sentava-se sempre no terreiro, debaixo de uma Palmeira centenária e de bom papo, conversava todas e todas as tardes com a vizinhança.

Falava dos seus pais, das suas lembranças em Minas, da fazenda onde nasceu e cresceu, dos irmãos sumidos, dos filhos mortos. Falava da imensa alegria por estar morando em São Paulo.

Era uma figura impar.

Fumava um cachimbo de barro e benzia a criançada com tosse comprida, íngua e quebranto.

Muito plácida, parecia ser a conselheira das jovens mães, pois na época minha mãe não tinha mais que trinta anos, considerando-se os oitenta e um que ela tem hoje.

Naquele terreiro da casa da Nhá Bába, tinha galinha, muito passarinho e um aconchego de casa de vozinha.

Nem cerca tinha a casa da Nhá Bába.

Sei que morar lá e perto da casa da Nhá Bába marcou muito a vida das pessoas.

Eram anos dourados. Quando chovia tinhamos no ar aquele cheirinho de mato molhado; escutávamos nos riachos que eram límpidos o canto da saracura.

Não havia maldade. Todos, desde os mais idosos, como os mais novos tinha espírito de criança.

As tardes eram mais coloridas e as familias mais unidas.

Os vizinhos, como a Nhá Bába, eram parte das nossas familias. Todos se cotizavam por alguém doente, por ajudar um amigo.

Fazia-se bolo e mandava-se sempre um pedaço à casa do vizinho.

Foi da casa da Nha Bába que tive o primeiro contato com a Festa de Reis. Muitos de seus parentes, outros velhos negros do bairro, cultivavam o folclore já praticamente desaparecido da cidade.

Rezava-se a novena em um santuário na Casa da Nhá Bába, com praticamente todas as mães do bairro.

Nhá Bába transmitia tanta dignidade que jamais poderei esquecer daquela figura maravilhosa, alva e esguia... uma rainha negra que tive a oportunidade de conhecer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário