terça-feira, 23 de dezembro de 2008

ESTÓRIAS DE ALGUNS NATAIS


Há quase setenta anos atrás, meu avô no pós revolução de 32, embrenhou-se no interior de São Paulo com a família, após ter sido exilado, por ter defendido as forças constitucionalistas.

Foram alguns anos difíceis e que marcaram minha mãe e meus tios.Há uns anos estivemos, eu e um tio, na Cidade de São Carlos, justamente na época do Natal. Iríamos visitar a fazenda que foi do meu avô, que hoje é propriedade de uma empresa da Cidade.Lá na fazenda, fomos recebidos pelos zeladores; vimos a base da casa onde meu avô, minha avó e seus filhos moraram.

Foi lá que meu tio me contou que quando da morte do meu avô, em 1948, a penúria bateu forte.

Eram uma escadinha de filhos. A mais nova com 5 e minha mãe, já mocinha, com quinze anos.

Meu avô morrera no mes de setembro e logo logo chegara o Natal.

Disse o meu tio, que ele e minha tia mais nova se surpreendiam com alguns ornamentos nas casas. Eram enfeites, fitas coloridas, estrelas, trenós, etc.

Sabiam apenas que havia um velinho que trazia presentes.

Na noite de natal daquele ano, meus tios andaram por várias ruas daquela cidade. Muitas festas ocorriam, em alguns lugares viam trocas de presentes entre crianças.

Meu tio menino, disse-me que o coração dele ficava encolhido quando via a irmãzinha parada, olhando bonecas e brinquedos nas mãos das outras crianças.

Mal podiam comer, mas criança não sente fome, sente vontade.

Aquela noite seria a noite que marcara a vida de todos da minha familia.

Natal da falta do pai, do brinquedo não ganho e do choro contido.

Era época da pobreza pós guerra.

Mas a falta do avô e a pobreza rápida matava os sonhos de criança e lançava todos na busca de dias melhores, atropelando suas infâncias.

Quando ele me disse sobre aquela noite de natal, senti uma dor horrível no peito, tal e qual eu estivesse presenciando as cenas que me contara.

Natal é para todos... pelo menos deveria.

Nunca olhamos atrás de nós, naqueles que estão na mesma situação que meus tios e minha mãe estiveram.

Olhamos apenas para frente. Muitos sofrem por não ter o que vêem, mas não olham os olhos molhados de lágrimas das crianças que jamais poderiam ter um brinquedo.

Há pais que choram sempre que se lembram que seus filhos mal conseguem fazer uma refeição.

Choram porque sabem que jamais poderão evoluir um centimetro sequer.

Este é o natal... das familias, das alegrias, mas também de muito sofrimento.

É no natal que se separam os que podem ganhar um brinquedo daqueles que não podem.

São as crianças que têm os dias simplesmente iguais.

Feliz Natal.

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