terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Fenômeno de vida após a morte



Fui operado há três anos em decorrência de a minha vesícula ter se rompido, mandando pedras para o pâncreas, fígado e outros órgãos.


Após ter passado por um hospital particular fui direto para o Hospital das Clínicas, o qual lutou para reduzir a infecção que o meu organismo apresentava, para que eu pudesse ser operado.


Fiquei por uma semana em processo de controle e preparação. Uma semana sem me alimentar, somente recebendo nutrientes via soro.


Naquele enorme hospital eu presenciei muitas coisas, inclusive várias mortes.


Posso afirmar que não fiquei com medo, mas tinha a preocupação de não voltar de lá e complicar a vida dos meus filhos.


Era viúvo e até então não havia caído na realidade de um casal somente eu havia sobrado.


Com certeza era este o maior obstáculo que de início enfrentava. Fiquei durante todo o tempo que antecedeu a cirurgia em um quarto com mais três companheiros. Dois com câncer e um com varizes esofágicas, as quais constantemente se rompiam e causavam hemorragias horríveis.


De início, logo da minha internação, caminhava o suficiente para não ter problemas com tromboses, mas rapidamente voltava ao leito. Dentre os amigos que mencionei, um estava com câncer no fígado e pâncreas. Sabíamos que lhe restava pouquíssimo tempo; os demais já tinham passado por cirurgias e estavam lá para outras, mas até então não requeriam cuidados como o outro amigo requeria.


Uma noite falávamos sobre a eventualidade de não sairmos de lá. Da minha parte falei que não tinha medo de morrer, mas que não queria que fosse naquele instante, pois meus filhos não poderiam ficar sem pai. Os demais amigos também afirmavam não ter o medo da morte, mas não queriam partir até que soubessem que todos da família poderiam seguir sem maiores problemas.


O amigo que realmente estava em estado crítico, confidenciou-nos que por vários dias, devido a medicação excessiva estava tendo alguns delírios visuais e que estavam fazendo muito mal a ele. Via vez por outra uma legião de amigos e parentes que já tinham falecido, apenas a olhar para ele. Ficavam fora do quarto, no corredor em frente ao nosso quarto. Disse-nos que tinha a sensação de já estar morto, pois ficava apavorado com as visões que tinha, que de uma forma ou outra o aproximava da morte. Pior foi quando ele disse que ao nosso redor haviam muitas pessoas, cada uma delas dedicadas a cada um de nós.


Sem saber se o amigo estava sob efeito de medicamentos ou não, fiquei ressabiadíssimo. Rezei para que eu não visse nada, pois se visse, morreria do coração.


Enfim, passaram-se os dias e fui para a cirurgia. Demorou sete horas, mas fizeram um excelente trabalho, pois além de corrigir os danos causados pela infecção, deram um banho de água sanitária em tudo o que encontraram por dentro. Em resumo saí lavado de lá.


Quando fui para a UTI, na saída da cirurgia, fiquei sabendo da morte do amigo que estava muito mal; lembrei-me do que minha mãe me falava dos parentes que vinham buscar os que morriam. Pensei comigo que se caso eu tivesse visto alguém com certeza eu já teria partido para outra.


Pois bem; não havia falado nada e pedi para que não contassem à minha mãe e irmã sobre o meu estado, apenas depois que eu tivesse a vida definida (para vida ou para morte). Sem saber do meu estado, minha irmã na noite da minha cirurgia, entre dormindo e acordada viu meu pai (falecido) se aproximar, abrir a camisa e mostrar um enorme curativo na barriga, falando o seguinte: - ele ressuscitou! Acordou assustada e logo pela manhã me ligaram; foi quando minha filha falou do meu estado.


Em resumo, deve haver algo de real na estória da vida após a morte, pois eram muitas as conversas que ouvi sobre isto, inclusive de vários e vários médicos e profissionais de saúde que fiz amizade naquele colossal hospital.

Nenhum comentário:

Postar um comentário