domingo, 14 de dezembro de 2008

Guerrilha do Araguaia; as faces ocultas da história.

Na década de 60 e 70, vivi os horrores da repressão, dos assassinos vestidos de fardas e de espiões vestidos de pessoas comuns, do mêdo das sombras, dos vizinhos... insegurança e desvalio.

Nas escolas éramos vigiados.

Não havia grupos de amigos que se encontrassem na rua para livremente conversar.

Sempre havia algum ouvido ou a presença física de algum estranho. Falar em contrariedade e esperança de dias melhores era o mote para sermos classificados como subversivos.

Apanhavamos dentro da escola por gorilas vestidos de fardas, com seus cacetetes monstruosos. Eramos crianças e adolescentes.

Todas as noites invadiam as escolas da periferia, para demonstrar força sobre professores e alunos.

Foi uma época rica no saber. Todos nossos professores do colégio estadual eram advindos da USP.

Colégio particular era para quem não tinha condições de acompanhar a força do colégio do estado.

Falávamos de política, de arte e de música.

Era época dos Beatles e do tropicalismo.

Tinhamos nossos pontos de encontro nos finais de semana, nos bailinhos na casa de alguém.

Criava-se em São Paulo uma tal "Operação Bandeirantes", financiada por empresários, visando sufocar qualquer reação da sociedade em mudar a sorte das coisas. Esses empresários eram aquinhoados pelo regime, com concessões e negócios doados.

Nessa "Operação Bandeirantes", alguns assassinos condenados e enjaulados, eram tirados de suas celas para exercer o serviço sujo de matar aqueles que o comando entendia ser inimigo do Governo e de seus interesses.

Comunista ou socialista eram vistos como assassinos de criancinhas.

Mesmo com a trégua vinda pela abertura política é dificil esquecer a força desmedida do estado sobre os seus desafetos.

Matavam e matavam... torturavam e calavam a borrachadas, choques e inúmeras formas de horror.

Tentaram aniquilar a coisa mais rica que um País pode ter: seus jovens com seus ideais.

Muitos amigos e parentes sumiram; alguns mortos e outros devolvidos à sociedade abobalhados pela tortura, marca registrada do Exército brasileiro e forças de repressão na época.

O PCdoB, clandestino na época, criou a possibilidade de abrir uma frente de resistência ao autoritarismo na selva amazônica.

Hoje onde é o Estado de Tocantins, no bico do Papagaio, 70 guerrilheiros, precariamente instalados, foram quase que todos mortos, com os requintes de crueldade dignos das ações de cangaceiros.

Até hoje a história se perde, pois foi imposto um toque de silêncio na região, que demandou mais de 20 anos e que até hoje amedronta os contemporâneos da guerrilha.

Foi a maior movimentação militar brasileira, desde o final da segunda guerra mundial; envolveu mais de 10.000 soldados contra 70 guerrilheiros.

Hoje as comissões de direitos humanos, com a colaboração de alguns soldados que viveram a matança, reconstituem o que foi a Guerrilha do Araguai, com o intuito de localizar os restos mortais dos guerrilheiros mortos, devolvê-los às familias e esclarecer essa lacuna existente no passado.

Aqueles que não vivenciaram a época, devem saber que se há hoje um Brasil aberto, livre até para abusos, com chances de se viver e crescer, muitos foram mortos e mutilados espiritualmente para que isto acontecesse.

A história é muito próxima... interessem-se e procurem saber o que houve, para que haja valor em tudo o que temos e podemos fazer hoje pela nossa sociedade.

Barbarie nunca mais.

Hoje na plenitude dos meus 52 anos, vividos ardentemente, sinto uma saudade tremenda dos dias em que fui criança e adolescente, mas tento apagar da lembrança os dias de horror. Haviam fotos de procurados, espalhadas pela cidade.

Fotos de pessoas como nós, que apenas queriam poder expressar seus anseios, ver seus filhos e amigos longe de uma ditadura cruel e assassina. Ditadura mutiladora de almas.

Eram pessoas que em sua grande maioria acreditavam que a base da vida era o pensar, mas o regime impedia que se pensasse. Era proibido pensar e externar, cabendo o castigo da pena de morte para os transgressores.

Amigos, estamos no céu.

Valorizem essa dádiva de poder expressar e poder crescer como ser humano.

Saibam que quase toda a anomalia social que vivemos no presente, são consequência dos anos de refreamento da sociedade da época.

Nossos pobres e desvalidos, são crias do passado.

Se há criminosos é porque a grande maioria deles vieram neste pós guerra silencioso, que matou tudo que uma sociedade precisa para se desenvolver justamente, principalmente a cultura, morta nos anos de totalitarismo.

Estamos pagando hoje pelo erro dos dominantes do passado.

O que nos resta é exigir sempre uma sociedade mais justa e equilibrada.

Como sempre a sociedade está pagando e lutando para reverter o passado errado.

Vejo nisto a filosofia do Cristianismo, pois a fé é que nos fará realmente transformar erros em acerto, ímpios em justos.

A guerrilha do Araguaia foi um dos movimentos que visava tudo o que falei, libertar a sociedade, criando um foco de resistência em meio à selva.

Mas me parece que foi a guerra de Don Quixote contra os moinhos de vento.

Pura emoção de jovens, cuja força, no passado, fez David derrubar Golias.

Heróis brasileiros mortos visando libertar brasileiros.

Grande história; reverencio os bravos brasileiros mortos na guerrilha em prol de um Brasil melhor.



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