domingo, 19 de setembro de 2010

Conheçam o museu do crime.

Museu do Crime mistura histórias chocantes com trabalho educativo

Daniella Dolme - 04/04/2010 - 09h03
Daniella Dolme
Reprodução de um cativeiro com grades que fizeram parte de um crime real
Recebendo uma média de quatro ou cinco escolas visitantes por mês e um total de 500 pessoas, mais do que expor a história dos crimes mais chocantes e conhecidos do grande público, o Museu da Polícia Civil de São Paulo presta também um serviço social: ao trazer a realidade dos fatos para os jovens com mais de 16 anos, procura atuar como um agente educador, a fim de instruí-los para que não entrem para o mundo das drogas e do crime.
Dividido em seções, o Museu apresenta ao visitante primeiramente, para não chocar logo de cara os mais sensíveis a imagens, a história da polícia civil e os efeitos que as drogas lícitas, como bebidas alcoólicas e cigarro, e as ilícitas, como maconha, crack e cocaína, causam aos usuários.
Já um pouco mais para dentro, uma pequena sala abriga fotos explícitas e histórias sobre crimes contra a vida: aborto, infanticídio, suicídio e homicídio. Durante a visita, os monitores procuram não se deter muito tempo ali, pois o conteúdo das imagens pode ser considerado forte para o público que não está acostumado. Em meio à rápida explicação, saltam aos olhos os quatro fetos preservados em formol e instrumentos utilizados para a realização de abortos, alertando principalmente as garotas sobre as possíveis sequelas adquiridas em procedimentos deste tipo.
Dando continuidade ao percurso, é curioso observar a reprodução de um cativeiro feito com as grades onde realmente alguém esteve trancafiado e ainda ver, colocada ao lado, a solda utilizada para desmontar a “jaula”(confira na imagem acima).
Seguindo a mesma intenção de reconstituir um ambiente real, encontra-se a cela de uma penitenciária. A porta de metal veio de um corredor do antigo Carandiru – o maior presídio do Estado de São Paulo, implodido em 2002. Mais do que representar como vivem os presos, a cena também propõe um jogo, no qual os alunos são instigados a adivinhar quais objetos não deveriam estar presentes – por exemplo, na vida real, não é permitido o uso de porcelana nas pias e privadas dentro das celas, ou ainda canos de torneira; a televisão deve ser lacrada; e assim por diante.
No mesmo ambiente, um painel conta didaticamente como ocorre o processo do julgamento e, novamente, é possível verificar o viés educativo do Museu.
Daniella Dolme Sala de aula no Museu: como mostrar para os jovens que o mundo do crime não compensa
Aulas para a Polícia Civil
Além de fotos, documentos, máquinas de jogos de azar, móveis e instrumentos utilizados pela polícia desde a década de 50, o espaço também abriga armas como facas, revólveres, espingardas e metralhadoras, originalmente usadas em cenas de crimes.
Aberto ao público desde 1952, esse acervo já estava disponível em meados dos anos 20 aos alunos da Academia da Polícia Civil, em exposição nos armários das salas de aula da escola e servindo como ilustração às aulas ministradas. Dessa forma, as peças do Museu, naquela época, já tinham a função de apoio didático e técnico aos policiais civis durante a fase de treinamento para as 14 carreiras da corporação, nos cargos de delegado, perito criminal, médico-legista, escrivão, atendente de necrotério e auxiliar papiloscopista (policial especializado em identificação humana).
Desde que está alocado nesta sede (1970), o Museu possui, inclusive, uma “casa-crime”: uma maquete do tamanho real de uma casa, com sala, cozinha, banheiro e quarto, onde ficam dois bonecos simulando um suicídio ou homicídio e vários vestígios são espalhados para que os próprios alunos da polícia desenvolvam teses e demonstrem a capacidade de investigação, coleta de materiais (perícia) e proponham uma solução para o crime. Esta é a única ala totalmente restrita ao público, disponível apenas para prática de treinamento de futuros policiais e na presença dos professores da Academia.
Porém, o trabalho de investigação, a importância da perícia e de provas técnicas, o procedimento para identificação de corpos e até o método para desenvolvimento de retrato falado são etapas para a resolução de um crime citadas e comentadas ao longo do passeio, em todas as outras seções visitadas.
Daniella Dolme Passo a passo da identificação de corpos, a importância da impressão digital e o uso de detector de mentiras
Área Criminal
O Museu ganhou fama principalmente por abrigar uma área dedicada a contar as histórias de crimes notórios, seja pelo grau de crueldade, pelo choque da sociedade na época em que ocorreu ou simplesmente por ter ganho destaque na mídia algum dia. Separado em três grandes grupos (crimes sexuais, patrimoniais e chacinas), o espaço relembra com poucas palavras e algumas imagens –apenas o suficiente– as histórias de figuras como Maníaco do Parque, Chico Picadinho, Bandido da Luz Vermelha, o italiano “homem-gato” Meneghetti e o crime da mala.
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 Maníaco do Parque – Chico Estrela
Francisco de Assis Pereira foi preso no dia 4 de agosto de 1998, acusado de estuprar e matar 10 mulheres no Parque do Estado, no Km 16 da Rodovia dos Imigrantes. O rapaz conquistava as moças pedindo para participarem de um ensaio fotográfico, no entanto, ao entrar na mata, transformava-se e estrangulava-as com um cadarço de tênis. Confessou os crimes com frieza e por meio de testes psicológicos ficou constatado que o motoboy possui desvios de personalidade. Em 2002, após denúncia do Ministério Público, foi condenado a 107 anos de prisão por roubar e violentar nove mulheres que sobreviveram aos ataques e a mais 121 anos pelas mortes confessadas. Atualmente está preso na Penitenciária de Oswaldo Cruz, interior de São Paulo.

Chico Picadinho
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Francisco Costa Rocha cometeu o primeiro assassinato em 1966, quando estrangulou e esquartejou a ex-bailarina austríaca Margareth Suida, usando faca, tesoura e gilete. Preso após ser denunciado pelo companheiro de apartamento, confessou o crime e foi condenado a 17 anos e seis meses de prisão. Depois de conquistar a liberdade condicional, passou apenas dois anos solto, quando cometeu novamente o mesmo tipo de crime, com outras quatro mulheres, conforme apurado nas investigações. A condenação subiu para 30 anos, 7 meses e 8 dias de prisão e hoje encontra-se no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Arnaldo Amado Ferreira, na cidade de Taubaté.
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 Bandido da Luz Vermelha
João Acácio Pereira da Rocha começou na vida do crime cometendo pequenos furtos em Joinville, Santa Catarina, na década de 1950. Logo depois de ser preso, conseguiu fugir e veio para São Paulo, onde continuou cometendo os mesmos delitos; agora com a ajuda de uma lanterna de luz vermelha para acordar as vítimas e alcançar os objetos mais valiosos disponíveis nas residências – por isso o apelido. Apesar da luz e do lenço no rosto para esconder a aparência, Acácio descuidou-se das impressões digitais e foi descoberto pela Polícia Civil, sendo preso em 1967, quando foi localizado em Curitiba (PR). Durante o interrogatório, confessou o assassinato de quatro homens e foi condenado a mais de 300 anos, contabilizando cerca de 77 assaltos e sete tentativas de homicídio. Solto depois de cumprir a pena máxima de 30 anos, em 1997, foi morto durante uma briga com um tiro de espingarda.

Meneghetti
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Gino Amileto Meneghettichegou ao Brasil em 1913 fugido da Itália, sua terra natal, e se refugiou na cidade de São Paulo, onde se dedicava à prática de furtos qualificados, entrando nas residências por meio de arrombamento ou pelo telhado – por isso ficou conhecido como o “homem-gato”, “fantástico homem borracha”, ou ainda “homem dos pés de mola”. A primeira prisão e fuga ocorreram em 1914, sendo capturado novamente em 1926, ocasião em que foi condenado por 25 anos. Entre idas e vindas no cárcere, quando estava solto, aos 90 anos, tentou entrar numa casa pelo telhado e devido à fragilidade das telhas, caiu. Por conta da idade avançada foi liberado, mas dois anos depois, em 1970, voltou a ser preso quando forçava a porta de uma casa no bairro de Pinheiros, na capital paulista. Seis anos depois, aos 98 anos, morreu de mal súbito.
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 Crime da Mala
José Pistone, imigrante italiano, desconfiava que sua mulher, Maria Mercedes Féa Pistone, grávida de seis meses, estava sendo infiel. Movido pelo ciúme, esganou Mercedes até a morte dentro de casa, na cidade de São Paulo, em 1928. Para se livrar do corpo, comprou uma grande mala, que depois seria despachada para o porto de Santos. Entretanto, passado um tempo, o corpo ficou enrijecido e, para acondicioná-lo, teve que quebrar o pescoço e cortar as pernas da mulher. Após ser despachada, a mala começou a cheirar mal dentro do navio, com destino a Bordeux (França), chamando a atenção dos navegantes. O malote foi então entregue a polícia, que durante as investigações conseguiu chegar ao nome do culpado por conta da nota fiscal da mercadoria. Com isso, Pistone foi condenado a 31 anos de prisão por homicídio e profanação de cadáver. Em 1948, vinte anos depois do crime, foi solto e se casou novamente em Taubaté, cidade em que morreu anos depois.
Outros crimes mais recentes estão previstos para entrar no acervo, entretanto, segundo a administração do local, a lista de nomes não pode ser divulgada para proteção da família dos envolvidos.

Serviço: Museu da Polícia Civil – Museu do Crime Praça Reynaldo Porchat, 219 – Cidade Universitária – Portão 1

Horário de visita: 13h às 17h, de terça a sexta-feira/ último sábado do mês das 9h às 12h
Entrada Franca
Idade mínima: 16 anos
Telefone: (11) 3039-3400 *Para grupos com mais de 10 pessoas é necessário agendar com antecedência.

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