sábado, 11 de setembro de 2010

O Tiririca da Islândia; lá também um palhaço se tornou político.

Palhaço municipal


Na Islândia, o comediante foi eleito prefeito da capital



A Islândia é mesmo sacudida. Depois da bancarrota, do vulcão e da primeira-ministra assumidamente gay, o país volta a surpreender. No início do ano, um personagem que nasceu como uma ficção decidiu que era hora de celebrar a democracia. Ao justificar a decisão de se lançar candidato às eleições parlamentares, explicou que estava cansado das dificuldades da vida de autônomo e “precisava garantir um salário fixo para cuidar dos meus assuntos”. 



A candidatura-piada foi lançada na internet em maio e se revelou um fenômeno. Tanto assim que o candidato decidiu que concorrer ao Parlamento era pouco. Melhor mesmo era se lançar logo a prefeito da capital Reykjavík, o segundo cargo mais importante da hierarquia política do país, perdendo apenas para o de primeiro-ministro. Além dos benefícios pecuniários – um parlamentar ganha cerca de 7 mil reais enquanto o prefeito de Reykjavík embolsa 13,5 mil –, o cargo abriria horizontes mais amplos: “Quero arranjar um trabalho bem pago pra poder ajudar meus amigos e parentes. Também quero ter assessores e ganhar um monte de coisas de graça”, declarou com candura o candidato a prefeito. 



E assim foi feito. 



Em 29 de maio, Jón Gnarr, personagem inventado pelo cidadão islandês Jón Gunnar Kristinsson, venceu as eleições municipais com 20 666 votos, 34,7% do eleitorado. É como se o Macaco Tião tivesse chegado ao Palácio Guanabara, ou Cacareco ao Palácio dos Bandeirantes. Mais precisamente, é como se o seu Creysson tivesse sido eleito, e Claudio Manoel, a caráter, fosse investido do mandato. Só não é mais absurdo porque Jón Gunnar Kristinnsson registrou o nome da criatura em cartório, adotando-o e tornando-se, assim, a criatura do criador. 



Jón Gunnar Kristinsson nasceu em 1967, e veio ao mundo decididamente a passeio. Vagou por três ou quatro escolas, sem se formar em nenhuma. O único diploma que obteve foi a carteira de habilitação de taxista. Não que tivesse vocação para bem servir ao público. O que lhe interessava, mesmo, era a música punk. Conhecido como Joãozinho Punk, foi baterista das bandas Ógledi (Mal-Estar) e Nefrennsli (Corrimento Nasal), ambas de saudosa memória. Do táxi, migrou para um emprego num abrigo de necessitados, dali pulou para vigia noturno de um sanatório, e quando se deu conta estava montando Volvos na Suécia. 



Como tivesse um senso de humor anárquico, um amigo o convenceu de que estava jogando a vida fora. Voltou para a Islândia e foi direto para a rádio, onde ajudou a criar programas humorísticos como Fim do Mundo, Bíceps e Irmãos de Criação. A repercussão foi imensa – para o bem e para o mal. A ilha crescera com os relatos de selvageria das sagas nacionais, mas machadinha na cabeça é uma coisa, outra bem diferente é piada sobre um menino que aceita ser molestado sexualmente pelo pai em troca de dinheiro para comprar sorvete.



Em pouco tempo, a Islândia se dividia entre os que achavam Jón Gnarr um gênio e aqueles que o consideravam a escória da Terra. O fato de ser católico devoto, fanático, não deixa de ser mais uma de suas excentricidades – no país majoritariamente luterano, os católicos não passam de 3% da população, número ligeiramente inferior* aos que se professam ateus. 



Como não era possível se eleger prefeito senão a bordo de um partido, Jón Gnarr fundou o seu: o Melhor Partido. A plataforma de governo incluía toalhas grátis em todas as piscinas públicas, ônibus gratuito “para estudantes e pobres coitados”, tratamento dentário grátis “para crianças e pobres coitados”, um Parlamento sem drogas até 2020 e – verdadeira pedra de toque do programa – um urso polar para o minizoo. Segundo Gnarr, a medida atrairia multidões de turistas e aumentaria a receita do combalido erário municipal. O pacote zoológico também mencionava “carnear as 27 ovelhas do minizoo e organizar um churrasco”, mas a medida não foi levada adiante. 



Gnarr resumiu assim a plataforma política de seu partido: “A verdade é que não temos nenhuma plataforma partidária, mas fingimos ter uma.” O Melhor Partido tem a grande vantagem de poder fazer muito mais promessas do que seus concorrentes políticos pelo fato de não ter, assumidamente, a menor intenção de cumprir qualquer uma delas. 



Muitos eleitores afirmam ter sido exatamente esta a razão pela qual votaram em Gnarr: nenhuma plataforma de governo lhes soara tão honesta. Como políticos tradicionais haviam sido sócios da bancarrota de 2008, piadistas por piadistas, melhor um profissional. 



No seu discurso de vitória, Gnarr tranquilizou a população: “Ninguém deve ficar assustado com o Melhor Partido”, assegurou, “porque ele é o melhor partido. Se não fosse, seria chamado de Pior Partido, ou Partido Ruim. Nós nunca trabalharíamos para um partido assim.” Aduziu, a título de argumento definitivo: “E pior não fica.” 



O primeiro dia de trabalho não foi mole. “Saí da primeira reunião de gabinete com dor de cabeça”, confessou Gnarr. “Tive muita dificuldade para entender tudo que ocorria lá.” Incompreensível, talvez; chato, jamais. O secretariado de Gnarr é formado por atores, cineastas, músicos, escritores e dramaturgos. O segundo na linha de poder é um ex-integrante da banda Sugarcubes. O encarregado dos transportes públicos é o novelista Sjón, autor de vários poemas musicados por Björk. Gnarr, cujo porta-voz é um cineasta, considera-o qualificadíssimo pelo fato de jamais ter tirado carteira de motorista. 



E pasmem: o governo vai bem. O dia a dia do prefeito é acompanhado por 35 mil pessoas que o seguem no Facebook, o que corresponde, num país de 320 mil pessoas, a mais de 10% da população islandesa, ou quase 30% dos habitantes de Reykjavík. Diariamente, a turma é convocada a participar de microplebiscitos virtuais sobre questões da cidade: “Ônibus devem ou não ser gratuitos para menores de 18 anos?” “Quebra-molas devem ser abolidos?” “Os postes do centro são bonitos ou feios?”Nas sete piscinas públicas da capital, toalhas de graça e gratuidade para crianças com menos de 5 anos aumentaram, só nos primeiros onze dias, em 60% a frequência da meninada.

Crédito - Revista Piaui

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