domingo, 24 de julho de 2011

Alcóolicos Anônimos


William Griffith Wilson nasceu em 26 de novembro de 1895, em East Dorset, Vermont, EUA. Depois de uma bem sucedida carreira como corretor da Bolsa de Nova York, William, ou simplesmente Bill, como mais tarde viria a ser mundialmente conhecido, encontrava-se, em 1934, num triste beco sem saída: arruinado financeiramente em virtude da sua avassaladora dependência alcoólica, parecia caminhar a passos largos para a demência alcoólica ou para a morte prematura.
     Nesse tempo, a calamidade do alcoolismo era geralmente encarada como um mistério e uma terrível vergonha. Os alcoólicos recebiam pouca compreensão ou compaixão. No entanto, no Towns Hospital, em Nova York, um hospital já naquele tempo nacionalmente conhecido, para a reabilitação física e mental de alcoólicos – e onde Bill já se internara diversas vezes para quebrar a cadeia das suas bebedeiras sucessivas – o Dr. William Silkworth tinha uma teoria sobre o alcoolismo bastante inusitada para a época: que não se tratava de falta de força de vontade ou defeito moral, mas sim de uma doença legítima. Essa doença, na opinião do Dr. Silkworth, consistia na combinação de uma misteriosa “alergia” física com a compulsão para beber, isto é, os alcoólicos sofriam de uma paixão contínua ou periódica pela garrafa, mas todas as vezes que tomavam o primeiro gole um estranho processo de descontrole se desencadeava dentro deles, levando-os a beber mais e mais até atingir a embriaguez completa. Ainda na opinião do Dr. Silkworth, essa situação era irreversível e incurável, só restando aos portadores dessa doença uma única alternativa: absterem-se completa e definitivamente do uso de qualquer tipo de bebida alcoólica.
     Bill, racional, lúcido e inteligente, não obstante a dependência alcoólica que lhe comprometia a vida,  logo aceitou pacificamente essa teoria do Dr. Silkworth, até porque ele era assim. O autoconhecimento do problema impunha-lhe a abstinência total e, agora que ele sabia disso achava que o problema estaria resolvido. No entanto, Bill voltou a beber e pior do que antes. A sua esposa, Lois, descreveu as consequências desse retorno: "Meu marido virou um beberrão que não se atrevia a sair de casa, com medo de ser agarrado pelos vagabundos do Brooklyn ou pela polícia".
     
Depois de um mês de embriaguez constante, Bill voltou a internar-se no  Towns Hospital. Certo de que tanto o Dr. Silkworth quanto ele próprio estavam plenamente corretos a respeito do entendimento de que o alcoolismo era uma doença incurável, progressiva, irreversível - que somente poderia ser detida pela abstenção total da bebida alcoólica, único veículo que a impulsiona - e, como ele não tinha forças dentro de si mesmo para abandonar a garrafa, Bill sentiu-se condenado: não havia nada à frente exceto a morte ou a loucura!
     Então, Bill teve a experiência espiritual que não só iria mudar a sua vida, como também as vidas de milhões de pessoas que viviam mergulhadas na sarjeta física, moral e espiritual do alcoolismo no mundo inteiro. Eis como o livro "Levar Adiante - A história de Bill Wilson e como a mensagem de A.A. chegou ao mundo inteiro" (Alcoholics Anonymous World Services, Inc., New York, N.Y.) descreve esse extraordinário fato:
     
"Agora, ele e Lois estavam esperando o fim. Não havia nada à frente exceto a morte ou a loucura. Aquilo era o fim, o lugar de onde se pulava para a morte. ''A aterradora escuridão havia se tornado total", afirma Bill. "Na agonia do espirito, pensei novamente no câncer do alcoolismo, que já havia consumido minha mente e meu espirito e logo consumiria o corpo." 0 abismo se abriu a sua frente.
     Em seu desespero e desamparo, Bill gritou: "Farei qualquer coisa, qualquer coisa que seja!" Ele já havia chegado ao ponto de total esvaziamento - um estado de rendição completa e absoluta. Sem nenhuma fé ou esperança, ele gritou: "Se é que Deus existe, que Se revele!"
     O que aconteceu em seguida foi eletrizante. "0 quarto foi subitamente inundado por uma luz indescritivelmente branca. Fui arrebatado por um êxtase que escapa a qualquer descrição. Toda a alegria que eu jamais sentira era pálida em comparação.  A luz, o êxtase - não tive consciência de mais nada durante algum tempo.   
     "Então vi, com os olhos da mente, que havia uma montanha. Eu me achava no cume da mesma, onde soprava um vento muito forte. Um vento feito, não  de ar, mas sim de espírito. Forte e poderoso, 0 vento soprava diretamente através de mim. Veio então o fulgurante pensamento: "Você é um homem livre." Não sei durante quanto tempo permaneci nesse estado, mas a luz e  êxtase finalmente desapareceram. Enxerguei novamente as paredes do quarto. Conforme fui me acalmando, uma grande paz me invadiu e foi seguida por uma sensação difícil de descrever. Tornei-me agudamente consciente de uma Presença que parecia ser um verdadeiro mar do espírito vivo. Deixei-me ficar na praia de um novo mundo. "Esta deve ser a grande realidade", pensei. "O Deus dos pregadores.'"
     Saboreando esse novo mundo, fiquei nesse estado durante muito tempo. Sentia-me possuído pelo absoluto e aprofundou-se a curiosa convição de que, não importando quão ruins as coisas parecessem estar, não podia haver nenhuma dúvida quanto à perfeição absoluta do universo de Deus. Senti que pertencia realmente a alguma coisa, pela primeira vez na vida. Sabia que era amado e que podia amar em retribuição. Agradeci ao meu Deus, que me proporcionara um vislumbre do Seu Ser absoluto. Ainda que eu fosse um peregrino trilhando uma estrada incerta, eu não precisava me preocupar mais porque havia vislumbrado o grande além."
     Bill Wilson havia acabado de fazer 39 anos e ainda tinha metade da vida pela frente. Ele sempre afirmou que, depois daquela experiência, nunca mais duvidara da existência de Deus. Nunca mais ele tomou outro gole.
     
Seis meses depois, a 10 de junho de 1935, Bill, fundamentado na sua própria experiência no sofrimento e na recuperação do alcoolismo, inspirado nos princípios da Medicina e na idéia de um Poder Superior acima de todas as nossas cabeças, convenceu o Dr. Robert Smith - ou simplesmente Dr. Bob, como viria a ser mundialmente conhecido - a parar completamente de beber. Trabalhando juntos, o homem de negócios e o médico observaram que o seu grau de encorajamento aumentava à proporção que ajudavam outros alcóolicos a abandonarem a bebida.
     E foi à luz desse princípio espiritual que nasceu, cresceu e se expandiu a Irmandade dos Alcoólicos Anônimos - o primeiro grupo de autoajuda do mundo. Faz 74 anos que ex-bêbados inveterados - alguns deles considerados absolutamente irrecuperáveis - compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver o seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo.
     E faz 10 anos que eu sou um deles.

Antonio Maria Santiago Cabral

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