quinta-feira, 29 de setembro de 2011

De milionário a vendedor de alface, Marcio Noronha diz o que esperar da bolsa


São Paulo – Antes dos trinta, o carioca Marcio Noronha ganhou rios de dinheiro na bolsa, mas perdeu tudo pouco tempo depois. Ele tentou ser empreendedor no Paraguai e chegou a vender alfaces para pagar as contas da família. Determinado a fazer fortuna, Noronha voltou para o mercado financeiro e aprendeu as artimanhas da análise gráfica - desta vez para não sair mais da renda variável. 
Do céu ao inferno, foram muitos os episódios que marcaram a vida do sócio e analista técnico da Rico, um economista que não lê notícias e só toma decisões no rastro desenhado pelos gráficos. Em entrevista à EXAME.com, Noronha conta seus altos e baixos, sublinha a importância de limitar as perdas e compartilha suas expectativas quanto ao desempenho do Ibovespa, que pode, na sua visão, chegar aos 35.700 pontos. 
O começo de tudo 
Comecei a trabalhar em 1966 naquela que era a maior corretora do Brasil na época. Primeiro fui para a área de compra e venda de títulos, que ainda engatinhava, e depois atuei como operador. A partir daí comecei a investir na Bolsa do Rio e peguei um enorme ciclo de alta. Era uma fase em que todas as operações davam certo: tudo que você comprava subia. 
Ainda não tinha completado 30 anos, mas já ganhava muito dinheiro. Em pouco tempo acumulei um patrimônio enorme. Passei a fazer viagens internacionais, investi em obras de arte, adquiri carros, comprei uma casa no Leblon. Era filho de classe média e de repente fiquei rico. 
A primeira derrocada
Quando começou a onda especulativa que derrubou a Bolsa do Rio em 1971, eu levei apenas seis meses para quebrar totalmente. Se você acredita que o país vive um boom, você associa o comportamento das ações àquele momento. Delfim Netto taxara aquele ano como o do milagre econômico – e foi justo quando o mercado tombou. 
Em 2008 também sofremos com a crise. E isso no ano em que o Brasil ganhou o investment grade. Por isso, uma boa notícia não é necessariamente prenúncio de alta. Em 71 foi assim, ganhei sem saber como e perdi da mesma forma. Eu operava alavancado, então tive que vender tudo rapidamente para fazer frente aos prejuízos que tinha à medida que as operações a termo iam vencendo. 
Chegou o momento que eu não tinha mais do que me desfazer. Os amigos também desapareceram. Eu tinha uma vida social intensa e foi tudo para o vinagre. Se eu não estivesse tão alavancado talvez não tivesse sofrido tanto. Hoje eu só opero à vista. E aconselho as pessoas a fazerem o mesmo. 
Segundo revés
O golpe foi duro, mas eu sobrevivi. Passei dois anos quase isolado. Em 73 surgiu uma pessoa disposta a financiar o projeto de uma distribuidora, instituição que intermedia a negociação de títulos e valores mobiliários, mas que só pode operar em bolsa através de uma corretora. Aos poucos voltei às origens e passei a trabalhar como operador de mesa de open market, mas ainda sem investir na bolsa. Gradualmente paguei aos poucos as dívidas que ainda tinha com o banco. Não me tornei milionário, mas fiquei muito bem de vida. 
Em 76 comprei a parte do sócio que tinha me ajudado e me tornei dono da distribuidora. Um ano depois recebi uma proposta de venda e decidi investir o dinheiro na criação de um fundo de pensão no Paraguai. Naquela época, não havia esquema de previdência pública ou privada no país, normalmente as pessoas economizavam para construir casas e ganhar posteriormente com o aluguel. 
O projeto era audacioso e tentei colocá-lo de pé por um ano. No fim das contas, ele não saiu do papel. Voltei para o Brasil com pouco dinheiro e fui morar em um sítio que tinha construído na estrada de Teresópolis para Friburgo. Quando perdi tudo na bolsa, tentei saldar as dívidas com o imóvel. Mas nem o banco aceitou a propriedade. Para chegar ao local era preciso andar 28 km na estrada de terra. E quando chovia, o percurso ficava intransitável, um lamaçal gigantesco. 
A fase de agricultor e o retorno ao mercado 
Me mudei para o sítio e algum tempo depois passei a viver de uma grande lavoura de alfaces que plantei por lá. Foram seis anos nesta atividade, época em que também conheci uma nova companheira. Em 84 minha filha teve um problema dentário. O orçamento do dentista era tão caro em relação ao que eu ganhava que decidi voltar para o mercado financeiro. 
Um amigo me arranjou um emprego em uma corretora do Rio e eu voltei a trabalhar como operador de open market. Fui promovido como gerente, outras oportunidades foram surgindo ao longo do tempo, até que virei sócio de uma corretora. Da metade de 84 até 86 ganhei muito dinheiro. Peguei outro boom da bolsa, mas desta vez não estava mais alavancado. 
Depois que vendi minha parte na empresa, eu parei de trabalhar e passei a estudar análise técnica. Comecei a aplicar em casa, viajei, fui para os Estados Unidos e fiz cursos. 
Foi um período de muito aprendizado, treinamento, mas também de perder dinheiro. Saía do Brasil para fazer seminário de novas ferramentas e indicadores. Cada vez que voltava achava que tinha descoberto a pedra filosofal. Na prática eu continuava perdendo. Mas nunca desisti. 
Estratégia vencedora
Depois de muito apanhar, decidi me desvincular um pouco de operações de curto prazo a partir de 97. Quando comecei a considerar mais a tendência predominante de médio e longo prazo é que comecei a ganhar dinheiro de forma sistemática - comprava e vendia visando permanecer o maior tempo possível na operação. 
Isso não quer dizer que todas minhas estratégias foram bem sucedidas. Muitas foram um fracasso. Mas tirei o maior proveito possível das que deram certo. A coisa mais importante para o investidor é ser emocionalmente disciplinado no sentido de saber encerrar uma operação com prejuízo. Nenhum método pode ser vitorioso se você não tiver sangue frio para realizar prejuízo.
O dinheiro também precisa estar fracionado. Normalmente, você deve encerrar a operação quando perder 10%. Se você tem 100.000 reais e divide o investimento igualmente entre 10 ativos, se tiver um prejuízo de 10% com uma ação, a perda irá, na realidade, representar 1% do seu patrimônio. Enquanto o rendimento dos outros nove papéis não apresentarem um retorno que pelo menos empate seus ganhos com o prejuízo sofrido, você não deve mais aplicar nenhum centavo na bolsa. 
Tempo e paciência
A formação de uma carteira demanda algum tempo: para montar um portfólio conservador e eficiente você levará cerca de dois meses. Mas quando as pessoas veem a bolsa subindo elas não querem perder a alta. O leigo tem pressa, quer gastar logo todo seu dinheiro. Mas seja qual for o método adotado, análise fundamentalista ou técnica, é preciso combinar disciplina com controle de risco. 
Outra necessidade é estudar, entender o mercado. O primeiro passo pode ser investir em um simulador de ações na internet, apenas para aprender. Se ganhar na bolsa fosse fácil, estava todo mundo rico. 
Hoje vejo investidores saindo da renda variável depois de amargarem um prejuízo em seis meses. O problema é que o indivíduo quer que 10.000 reais se transformem em 1 milhão neste meio tempo. Ao invés de ter paciência e disciplina, muita gente opta por operar com opções. Mas elas foram criadas especificamente para vender, são um hedge. 
Se você tem um papel à vista e acha que o mercado vai cair, você lança uma opção para se proteger. Geralmente o comprador de uma opção é o pequeno investidor e o lançador é a mão forte. A briga é muito desigual, o que acaba tornado o mercado de opções um cemitério de malandros.
O segredo para ganhar
O gráfico já aponta um caminho antes que você efetivamente comece a operar. Se a performance não evoluir conforme o esperado, é preciso saber a hora de parar. O que você tem a seu favor é uma tendência predominante. Se trabalhar a favor desta tendência, você conseguirá se tornar um vencedor. 
Isto é feito unicamente através dos gráficos. Todas as minhas avaliações partem da análise técnica. Eu não tenho interesse por notícias, não leio jornal e não avalio fundamentos. Para mim, o preço já embute o que todo mundo acha sobre cada ativo.
Na realidade, o gráfico registra os preços - e os preços são as únicas coisas que fazem parte de um consenso geral e absoluto. Você pode comprar e vender ações durante todo o pregão. No final da tarde, o fechamento do papel é como um acordo de cavalheiros entre todos os participantes do mercado naquele dia.
Se o consenso colocar uma ação em tendência de alta é porque o mercado vai subir. O preço é este consenso, ele é a força predominante que determina o movimento dos papéis. O desafio vem do fato do mercado passar dois terços do tempo sem tendência nenhuma.
Mercado nebuloso
Vivemos um momento muito confuso. Desde outubro de 2010 o mercado passou quase um ano indefinido, com o Ibovespa subindo e descendo dentro de um mesmo intervalo até perder o suporte dos 57.600 pontos. 
A expectativa era que o patamar que por muito tempo serviu como um chão passasse a ser o teto na hora que o mercado fizesse o repique. Mas quando o Ibovespa bateu em 47.700 pontos e depois passou a subir, ele foi acima dos 57.600 pontos. Com essa volta, ele retomou uma tendência de alta.
Se o mercado ultrapassar os 58.589 pontos em uma sexta-feira, consolidando a tendência de uma semana, ele deve permanecer positivo até o final do ano, com chance de subir para 60.000, 62.000 pontos. 
A baixa vai voltar quanto o mercado fechar uma semana inteira abaixo dos 52.747 pontos. Se isso acontecer, o índice vai testar o suporte de 47.793, que já foi o fundo do poço em agosto. Perdendo este patamar – o que eu acredito que pode acontecer – o Ibovespa verá um próximo suporte na casa dos 35.700 pontos. 
Crédito - Marcela Ayres.

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