sábado, 17 de setembro de 2011

"Meu pai matou minha mãe na nossa frente".

Foto ilustrativa, mas a vítima também foi esfaqueada, inclusive no pescoço
História real e que na época abalou meu bairro aqui em São Paulo. Um pai alcoolizado em um momento de fúria esfaqueara a esposa na frente dos filhos.
Foi nos anos 70, uma família normal como qualquer uma, mas com uma diferença, eram muito próximos a nossa família, ou melhor, de todas as famílias antigas que povoaram a região que eu morava.
Um dos filhos era e é muito amigo meu. Eram vários irmãos, voltados ao trabalho em um negócio da família.
Conheci muito bem o pai, o qual jamais vi sorrindo. Era trabalhador mas alcoólatra. O via invariavelmente em bares no percurso da escola que eu frequentava a noite.
Um dia a tragédia. Chegara em casa bêbado, discutira com todos os filhos até o momento que resolveu partir para cima do amigo, que era um dos menores. A mãe partiu em defesa do filho, sendo atacada com uma faca, que lhe perfurou o pescoço atingindo uma artéria. Mal se pode socorre-la. Morreu praticamente instantaneamente.
Talvez hoje isso não seja novidade, mas na época traumatizou um bairro inteiro.
A mãe do meu amigo era dócil e extremamente recatada, uma dona do lar. Dedicada aos filhos e a família. 
Meu amigo até hoje perambula em psiquiatras e terapeutas. Na faixa dos cinquenta anos, talvez nunca mais poderá se recuperar do trauma.
Seu pai foi preso na época mas solto alguns anos depois. Como o próprio amigo me disse, perdoaram mas não queriam de forma alguma ter contato com o assassino da mãe.
Enveredado na bebida tornou-se um trapo humano. 
Na década de 80 morreu vítima de um atropelamento na marginal Tietê. Foi enterrado como indigente e a família só veria a saber da forma como morrera por um acaso do destino. Uma amiga da época que trabalhava no IML Central, o reconhecera por ocasião da sua autópsia, mas não deu muito alento ao caso pois pensara que a própria família tivesse a informação do ocorrido. Foi ela que em uma conversa informal anos e anos após que dera à família a informação do ocorrido.
Todos os irmãos atravessaram os caminhos do trauma. Um deles morreu por depressão. Uma das irmãs por várias vezes tentou o suicídio e em decorrência de várias tentativas veio a falecer debilitada.
A cena que o amigo me descreveu foi horrível. E me falou apenas "meu pai matou minha mãe na nossa frente", com lágrimas nos olhos e demonstrando uma tristeza insuperável na alma.
O alcoolismo é a pior doença comunitária que há. Ela não envolve só o doente, mas toda a sua família e sociedade. O alcoolismo quando não mata o doente, pode matar pessoas em seu meio.
Eu sou testemunha desse caso. 
Álcool é droga, como o crack, cocaína, heroína e maconha. E há gente que quer licitar algumas drogas, como se nada de ruim pudesse acontecer.
Uma família foi destroçada. Aqueles que sobreviveram jazem diante da imagem da coisa mais preciosa que tinham, se esvaindo em sangue como um porco abatido.
Reflitam e ajam em busca da sobriedade, tanto própria como para aqueles que a necessitam para ter vida digna.

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