quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os viciados em drogas tornam-se depressivos ou eram depressivos?

Uma questão que todas as horas me perturba é se os viciados em drogas eram depressivos e portanto iniciaram seus vícios, ou o vício os tornaram depressivos.
O que eu posso afirmar por experiência própria é que até descobrir que eu sempre trouxera comigo, vazio e agonia, bebi por mais de 30 anos.
Alguns amigos que tenho, cruzados -ex dependentes químicos de álcool e demais drogas, concomitantemente- hoje longe de tudo e colaboradores de associações de recuperação, concordam comigo que sempre trouxemos aquele vazio existencial, que em casos mais graves levam até ao suicídio.
Alguns médicos creem que a depressão se cura com alguns tratamentos de choque, com medicamentos pesados. Realmente em alguns casos curam. No meu, tomei antidepressivos por anos e no final do tratamento, bebia junto com os medicamentos. Aquela dor silenciosa sempre me acompanhava.
Descobri que a minha depressão, se é esse realmente o nome que se dá para vazio existencial, não me abandonava.
A sociedade moderna é tão agressiva e competitiva que as pessoas sofrem inconscientemente ataques diários, nos valores, costumes e essência.
O depressivo moderno quando doente tem a possibilidade de aliviar esse sofrimento com subterfúgios:  álcool para dar por horas uma euforia que alivia e demais drogas para se contrapor à depressão moral e física. Quando nos intervalos de uso, volta o vazio e a tristeza profunda - a dor da alma.
O medo de estar presente neste mundo tão incompreensível, no meu caso, foi um dos maiores motivos que me fizeram desde adolescente, adentrar no vício.
Só nós que passamos por isso sabemos o que é esse estado de sofrimento.
Médicos nos olham como doentes, mas talvez os sociólogos que constantemente analisam resultados de grupos, podem afirmar que de alguma forma o mundo criado pelos homens, não é e nunca foi sadio para a humanidade, talvez, somente para alguns que se aproveitam desse estado de coisas para enriquecer e dominar.
Eu sempre tive medo de estar fora da competição por ser melhor e bem situado no mundo. Desde o início fiz coisas que não queria, estudei o que não gostava e fiz contrariado o jogo do mundo competitivo.
Meus relacionamentos sociais sempre foram um fracasso, pois por várias vezes era forçado a encenar para poder estar participar dessa sociedade maluca, eletiva e extremamente cruel.
Tornei-me uma arma! De um lado a minha real essência com valores pessoais, inteligência natural e conhecimentos próprios ou adquiridos pela afinidade com situações que nos fazem bem . De outro, uma constante competição para poder viver, ascender e crescer. Crescer financeiramente, fazer ser reconhecido custasse o que custasse. Dia a dia uma agressão no bom senso e na personalidade. Neste ponto, mistura-se a agonia e o sofrimento de viver fora da sua própria natureza, agredindo as coisa boas e reais dentro da nossa percepção e natureza. Por várias vezes a ira acumulada por anos era descarregada nas pessoas que mais me amavam. Na esposa, nos filhos e em todos os reais e mais queridos amigos. 
Há uma mistura de experiências agradáveis, mas as desagradáveis superam a tudo e a culpa e o remorso se apresentam como estados constantes da alma.
Confortei-me no álcool e acabei-me em conflitos internos e externos, até que eu pudesse perceber que a essência do homem tem que ser obedecida e respeitada, detalhe que por quase toda a minha vida eu não dei valor algum.
No fundo do poço e quase morto, física e espiritualmente, busquei ajuda junto aqueles que tinham superado esse ciclo de vício e quase morte. Foi uma das maiores surpresas da minha vida, pois em questão de dias, a porta da minha visão interior se reabriu e eu realmente, comecei a viver.
Para mim, pela experiencia que tive, esse vazio interior existe em muitas pessoas, que pode ser momentaneamente encoberto pelo uso de drogas, antidepressivos e etc. Um dia estoura e a nossa natureza reage.
A sociedade atual é severa e destruidora. Criaram um processo em que o valor das coisas são medidas em cifras monetárias, a despeito do próprio homem que deveria ser o maior beneficiado de sua própria vida, com satisfação de viver.
Aquele que não consegue se destacar nesse modelo de sociedade cruel é repelido, esquecido, afastado e numericamente morto.
Desde criança esse processo começa, as vezes dentro dos próprios lares, onde as comparações são feitas, onde os pesos de pessoa a pessoa são constantemente avaliados, aprovados ou reprovados. Vem desde o engatinhar, onde o processo de aprendizagem é comparado e tem que estar milimetricamente próximo com o ideal, trazendo ao desfavorecido deste processo, demérito e até mesmo o afastamento no próprio lar.
O processo de destruição humana começa no lar, na escola e vai se avolumando do decorrer da vida.
Os valores da sociedade  elegem até os pares.
Poucos se casam com pessoas que a alma elege. Atraem-se mutuamente por vários motivos: aspecto físico; destaque social por dançar, por se vestir, por ser engraçado, por várias motivações superficiais. Mas isso se acaba rápida e dolorosamente. Quem se casa por causa da beleza, com certeza o casamento acaba quando a beleza física deixa de existir.
Há padrão para se empregar alguém, que vai principalmente da aparência até à providencial indicação pessoal. Muitos profissionais perdem espaço por ser gordo, por ser de raça diferente, por ter crédulo diferente, etc.
O vazio humano é decorrência deste mundo imperfeito e repleto de cobranças e modelos cruéis de vida. 
O homem tende realmente a ser um depressivo, de trazer em sua alma uma dor e uma agonia que é muito difícil de definir.
Vejam aqueles que padecem no mundo da ilusão das drogas, dentro do que expus.
Sabe como comecei meu processo de recuperação? Admitindo minha impotência diante daquilo que me afetava - o álcool - e conhecendo a brutalidade que o mundo havia feito dentro da minha sensibilidade.
Me vi livre da necessidade de fugir de mim mesmo e comecei a usar a minha vida de acordo como ela sempre foi, lá dentro daquele equilíbrio entre o certo e o errado, atendendo a busca da felicidade que ela sempre me exigiu, mas sem dor e sem pressões do mundo externo.
Utilizo minha sensibilidade e conhecimentos para poder trabalhar e recuperar os danos que causei a mim e aos outros. Tudo começou a fluir sem traumas ou sem máculas, sem culpas!
Acreditem, esse vazio e tristeza é o que mais impulsionam os seres humanos a buscar um lenitivo pra a sua dor, que pode ser alívio na bebida, nas drogas ou na dor extrema, o próprio suicídio.
Ajudem seus filhos e a vocês mesmos enxergando esse lado da dor silenciosa que está acabando com a nossa sociedade.

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