quarta-feira, 13 de junho de 2012

Psiquiatria, Alcoólicos Anônimos e Espiritualidade



Há poucos anos atrás existia um conflito aberto entre muitos psiquiatras, grupos de ajuda-mútua como Alcoólicos Anônimos (A.A.) e centros de tratamento baseados nos princípios de A.A.

Essas tendências, por motivos bem práticos, estão desaparecendo. Todos reconhecem que nenhum grupo ou metodologia tem a resposta para todos os casos. Não é só a questão de ter espaço para todos os profissionais da área, mas todos têm algo para contribuir.

Porém, sinto que entre psiquiatras do Brasil, existe uma resistência de qualquer alusão à espiritualidade, um assunto essencial, ao considerar os Doze Passos como parte do tratamento.


Recentemente, participei de uma mesa-redonda num Congresso sobre alcoolismo, juntamente com dois excelentes psiquiatras bem respeitados no campo de tratamento de dependência química. Durante as respostas às perguntas feitas pela platéia, todos os participantes da mesa contribuiram ativamente até que alguém fez uma pergunta sobre o papel da espiritualidade na recuperação. Os dois se calaram, olharam para mim e um deles me disse em voz baixa com toda a boa vontade: "Pastor John, acho que isto é para você". Eu então respondi com muito prazer.


Esse incidente mostrou duas coisas para mim. Primeiro, dois dos nossos melhores psiquiatras no Brasil no campo de dependência química, não se sentiram confortáveis com essa pergunta. Segundo, passaram a pergunta para mim como um "Pastor", um religioso. De fato, tenho um passado que inclui essa profissão, a qual deixei há muitos anos. E de fato esse passado religioso atrapalhou minha compreensão de espiritualidade, assim como a de muitas outras pessoas. Respondi a pergunta como um filósofo, sociólogo, membro de alguns grupos de ajuda-mútua e profissional no campo do tratamento de dependência química.

Lembrei deste incidente ao ler o último livro do psiquiatra americano mais reconhecido, e diria, respeitado nos Estados Unidos dentro dos últimos dez anos, Dr. M. Scott Peck, M.D.

Em 1978, ele escreveu o livro The Road Less Traveled (Simon & Schuster), como um agnóstico e psiquiatra, e abordou quatro assuntos: Disciplina, Amor, Crescimento e Religião, e Graça. A primeira frase do livro ficou famosa: "A vida é difícil." Inesperadamente, o livro ficou na lista dos best-sellers do New York Times por mais de 350 semanas; um record. Vendeu milhões de cópias em diversos idiomas, incluindo o português, cujo título foi traduzido lamentavelmente para Formação de Personalidade - Um Caminho a Desbravar (Editora Paulinas).

Foi o livro que mais ajudou a separar a religião da espiritualidade, e o entrosamento de espiritualidade com psicologia e psiquiatria. Teve grande impacto dentro dos grupos de ajuda-mútua e nos centros baseados na metodologia dos Doze Passos. A tradução no Brasil teve pouco impacto. Comprei várias cópias e distribui para pessoas que imaginei pudessem estar interessadas, mas não tiveram nenhuma reação.

Recentemente o livro foi reeditado pela Editora Imago, com o título A Trilha Menos Percorrida - Uma Nova Psicologia do Amor, dos Valores Tradicionais e do Crescimento Espiritual.

Desde 1978, Dr. Peck escreveu mais sete livros, alguns mais interessantes do que os outros, mas nenhum com o impacto do The Road Less Traveled, até um recente livro, Further Along the Road Less Traveled.

Entre o primeiro e o segundo Road, Dr. Peck, através do budismo, se define hoje como um cristão de nenhuma seita específica. O Further Along é bem interessante, o qual recomendo altamente àqueles que se interessam pelo tema da espiritualidade. Aborda: Perdão, Morte, Doenças-psico-espiritual-sócio-somáticas, Auto-Estima, Mistério, Alcoolismo, a Doença Sagrada, Sexualidade e Espiritualidade, e finalmente o Dilema da Psiquiatria.

Esse último capítulo, sobre o dilema da psiquiatria, foi adaptado se sua presentação como o Distinguished Psychiatrist Lecturer para a American Psychiatric Association em 1992. Eis alguns trechos:

"A psiquiatria não só negligenciou, mas ativamente ignorou o assunto de espiritualidade". (p.233)

"... todos nós somos seres espirituais (não necessariamente religiosos), e acredito que uma psiquiatria que não reconhece o ser humano como um ser espiritual possivelmente 'perdeu o bonde'". (p.234)

"Eu fui ensinado - como virtualmente todos os psiquiatras são ensinados - que a psiquiatria de alguma forma deve ser uma diligência científica. Um ideal de 'ciência pura' foi mostrado, e fomos advertidos que a ciência deve ser 'livre de valores'. Foi bobagem, é claro. Não é possível se fazer qualquer coisa, menos a prática de psicoterapia, sem valores." (p.236)

"A tradicional falta de treinamento na área de espiritualidade garante que o melhor treinado e astuto psiquiatra vai tropeçar destrutivamente nestes assuntos (religião/espiritualidade)". (p.237)

"(Uma) das causas de a psiquiatria americana ser negligente com a espiritualidade é a profunda influência de Freud. Sejam quais forem os motivos, Freud tem mais influência sobre a psiquiatria americana do que a psiquiatria em qualquer outra parte do mundo, com as possíveis exceções do Brasil e Argentina. Na Áustria, seu país de origem, por exemplo, Freud é uma figura relativamente pouco significativa. Nos Estados Unidos ele é, ainda hoje, - e eu acredito, merecidamente - uma figura importante." (p.239)

"A psiquiatria americana está num dilema no momento. Chamo isto de dilema porque sua tradicional negligência da espiritualidade levou-a a falhar em cinco áreas: diagnóstico ocasional desastroso; frequente maltrato, uma reputação negativa crescente; pesquisa e teoria inadequada; e a limitação do desenvolvimento pessoal do psiquiatra". (p.243)

"Mas, se a psiquiatria americana não se adaptar à nova maré, ela provavelmente vai acabar na contracorrenteza intelectual". (p.236)

É claro que nem tudo aplicável aos Estados Unidos é sempre aplicável no Brasil.

Isso não é uma crítica, mas um apelo à psiquiatria brasileira para preencher o seu papel no campo do tratamento de dependência química na sua totalidade. Eu acredito que a psiquiatria brasileira faria uma contribuição muito mais profunda e eficaz no campo de dependência química, se considerasse a realidade da espiritualidade

John E. Burns, Ph.D., CEAP/São Paulo

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