quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Vitória de Haddad será a vitória de Maluf


“Vitória de Haddad será vitória de Maluf”, diz secretário-geral do PP

Jesse Ribeiro, fiel aliado de Paulo Maluf, afirma que o malufismo tem papel determinante na campanha do petista Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo

ALBERTO BOMBIG


Lula, o ex-ministro Fernando Haddad e o deputado Paulo Maluf (Foto: Eliária Andrade / Agência o Globo)

Em 2002, após quase duas décadas de votações expressivas em eleições para o Executivo,Paulo Salim Maluf (PP) iniciava em sua longa trajetória política um período marcado por ações judiciais contra ele (que culminaram em sua prisão em 2005) e fracassos retumbantes nas urnas. Nesta semana, dez anos depois de ter ficado fora no segundo turno da eleição para o governo de São Paulo, Maluf, segundo seus aliados, sente-se aliviado pelo bom desempenho de Fernando Haddad (PT) na disputa pela prefeitura da capital paulista, contra o ex-governador José Serra(PSDB).
“Cai por terra o mito de que, se o Maluf apoiasse algum candidato, esse candidato estaria liquidado”, diz Jesse Ribeiro, secretário-geral do PP e aliado fiel de Maluf em todas as eleições das quais ele participou desde 1978. A afirmação de Ribeiro, representante do PP no comando da campanha de Haddad, baseia-se no fato de que a aliança do grupo malufista com o candidato do PT foi anunciada ainda em junho último, nos jardins da casa de Maluf, em São Paulo. O anúncio contou com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Foi tudo muito transparente. Naquela ocasião, Haddad tinha 8% nas pesquisas”, diz Ribeiro. Para ele, se Haddad vencer, “Maluf terminará sua carreira política com uma grande vitória”.

“Vitória” é uma experiência rara para Maluf desde 2002. Naquele ano, o ex-prefeito e ex-governador ficou fora do segundo turno na disputa para governador paulista. Na rodada final, decidiu apoiar José Genoino (PT) contra Geraldo Alckmin (PSDB). Como apoiador de Genoino, perdeu. Dois anos depois, ficou novamente fora do segundo turno em mais uma eleição para prefeito. Apoiou Marta Suplicy (PT) contra José Serra (PSDB). Novamente seu candidato perdeu.

“A partir de 2002, quando ele não conseguiu mais passar para o segundo turno nas eleições para o governo do Estado e para a prefeitura de São Paulo, ele apoiou o PT. Nas duas vezes (2002 e 2004) seu cálculo político era tentar enfraquecer o PSDB”, afirma Maurício Puls, sociólogo formado pelo USP, jornalista e autor do livro O malufismo (editora Publifolha). Segundo Puls, Maluf tentava sempre reconquistar sua posição de principal representante político da direita em São Paulo. “Obviamente, essa estratégia deu errado, e seus eleitores votaram majoritariamente no PSDB.”
Entre o fracasso de 2002 e a liderança de Haddad nas pesquisas de intenção de voto, Paulo Maluf foi preso pela Polícia Federal. Em 2005, como resultado de um processo movido pelo Ministério Público, no qual ele é acusado de crime contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro, corrupção e formação de quadrilha, Maluf e seu filho Flavio ficaram dez dias na cadeia. Maluf negou todas as acusações e em 2006 foi eleito deputado federal. Dois anos depois, disputou novamente a Prefeitura de São Paulo, no que seria sua última candidatura majoritária. Na ocasião, seu partido não apoiou ninguém no segundo turno (leia quadro abaixo).
No centro da campanha


Neste ano, apesar de não ter se lançado candidato, Maluf esteve no epicentro da eleição desde o início das articulações. Foi tema de debates, ações na internet e de várias discussões sociológicas. “Estávamos negociando com Serra (adversário de Haddad neste segundo turno), mas ele começou a nos tratar como sublegenda. Então fechamos com o PT”, diz Ribeiro. A aliança provocou reações inflamadas de petistas na internet e provocou a reação de Luiza Erundina (PSB), inimiga histórica de Maluf que desistiu de ser vice de Haddad.


Pouco mais de um mês depois desse alvoroço político, Maluf dominou novamente a pauta devido à surpreendente ascensão de Celso Russomanno (PRB), seu ex-pupilo, nas pesquisas de intenção de voto. As propostas e a figura de Russomanno suscitaram um debate sobre o poder do malufismo, a corrente política baseada na trajetória de Paulo Maluf. “Não se trata exatamente do renascimento do malufismo, mas sim do renascimento da direita tradicional na cidade de São Paulo”, diz Mauricio Puls. “O malufismo foi apenas a principal expressão política dessa direita nos anos 1980 e 1990, mas não era a única. Jânio Quadros venceu em 1985 com o apoio do eleitorado conservador, que agora votou, em grande parte, em Celso Russomanno.”

Para o assessor Jesse Ribeiro, porém, o malufismo teve papel determinante até agora na candidatura de Haddad. “No primeiro turno, muitos eleitores pouco informados ainda achavam que Russomanno estava no nosso partido. E esse eleitor sempre acompanhou o Paulo Maluf. Agora, no segundo turno, esse eleitor vai de Haddad, as pesquisas mostram isso. Números são números”, diz o secretário-geral do PP.

Paulo Maluf não realizou o sonho de chegar à Presidência da República, mas se manteve próximo do poder sempre que possível. Fez parte do regime militar, a que serviu como prefeito e governador biônico (indicado pelo governo federal), foi da base de sustentação do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e uniu-se à base que dava apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pode ser tarde demais, porém, para que recupere sua força política individual. Segundo Mauríco Puls, não há a possibilidade de Maluf ou mesmo o malufismo recuperar o espaço perdido em caso de vitória de Fernando Haddad. “A direita tradicional parece ter abandonado o PSDB e está em busca de novos nomes. Mas não está claro quem ocupará esse espaço.”

Sobre o futuro, Jesse Ribeiro diz que o PP está à disposição para ajudar Haddad a administrar a cidade de São Paulo, caso as pesquisas que dão a dianteira ao petista se confirmem neste domingo. “Haddad não nos prometeu nada, e não vamos exigir nada. Nosso compromisso termina na eleição. Mas ele tem dito que pretende repetir a base de apoio da presidente Dilma Rousseff(PT), então podemos ajudá-lo.”


Crédito - Revista Época

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